Por mais interessante que venham sendo para estudantes do intercâmbio de culturas o tópico do primeiro encontro entre a Europa e o Japão, deve reconhecer-se que o “século cristão” foi um período da história japonesa que se distinguiu por acontecimentos tumultuosos que pouco tiveram a ver com o cristianismo. Os triunfos e os trabalhos da religião alheia constituem um sub-enredo desse espectáculo, não o seu tema principal. Tem também de reconhecer-se, contudo, que os europeus católicos escreveram para si próprios um pequeno mas imortal papel nesse grande drama. É impossível escrever uma história séria do Japão no período Azuchi-Momoyama sem remeter constantemente para fontes portuguesas. Neste estudo de Ana Fernandes Pinto é sujeito a meticulosa análise um monumento ao século XVI do Japão legado pelos missionários europeus – o extenso compendium intitulado Cartas qve os Padres e Irmãos da Companhia de Iesus escreuerão dos Reynos de Iapão & China aos da mesma Companhia da Índia , & Europa, des do anno de 1549 até o de 1580. Um suplemento denominado Segvnda Parte das cartas de Iapão prossegue a colectânea de correspondência até ao ano de 1589. Seria, no entanto, uma negligência denominar este compendium apenas de monumento ao “século cristão” do Japão. Sob um outro ponto de vista, esta obra constitui um legado dos missionários jesuítas portugueses ao seu país. O grande mérito do estudo da Ana Fernandes Pinto é o de unir estas duas perspectivas. Incumbindo-se de tratar “uma imagem do Japão nas cartas de Évora”, a autora embrenha-se numa tarefa complexa. Por um lado, envolve-se na história do livro, isto é, na história da cultura portuguesa e na história da propaganda internacional; por outro lado, preocupa-se com o desenvolvimento interno da história nipónica. O seu muito louvável trabalho representa a primeira tentativa académica de abordar a prolixa epistolografia jesuíta sobre o Japão nesta perspectiva integrada.
(Do prefácio de J. S. A. Elisonas)